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Entre janeiro e fevereiro, deixou de chegar aos reservatórios das usinas hidrelétricas do Sudeste uma quantidade de energia equivalente à que entrou em agosto, setembro e outubro do ano passado. É como se esses reservatórios, em apenas 40 dias, tivessem passado um período de três meses sem receber água. Em janeiro de 2013, a Energia Natural Afluente (ENA) na região, que nada mais é do que a quantidade de energia que pode ser produzida conforme o regime de chuvas, foi de 45.513 megawatts médios (MWm). Um ano depois, esse volume caiu para 29.403 MWm, o que significa que o potencial de produção encolheu em 35,4%. Entre  1º e 9 de fevereiro do ano passado, a ENA estava em 55.200 MWm. Em igual período de 2014, o indicador ficou em 19.710 MWm, uma queda de 35,7%. 
De acordo com Flávio Neiva, presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), a demanda média de energia no Sudeste em janeiro foi de 66.821 MWm contra 59.800 MWm em janeiro do ano passado. O aumento de 7.021 MWm nos gastos é quase o dobro da energia firme que será oferecida em Belo Monte (4.300 MW). Entre um janeiro e outro, a demanda no pico também cresceu de forma assustadora – de 71.890 MW para 85.708 MW (19%). 
Ao contrário do que se pode imaginar, todo esse aumento de consumo vem sendo bancado pelas usinas hidrelétricas, que estão trabalhando a toda a carga, e não pelas térmicas. Em janeiro do ano passado, elas geraram 36.635 MWm. Em igual mês de 2014 foram 44.231 MWm. A diferença é de 7.596 MWm, volume que é praticamente igual a toda a energia firme que sai de Itaipu Binacional (8.540 MW). “Enquanto isso, estamos gerando o máximo das térmelétricas, já que não houve expansão desse parque de usinas conforme o previsto. Em 2013 entraram 3.200 MWm em térmicas”, aponta Neiva.
Para os especialistas, a situação é fruto da conjunção de três fatores: a edição da MP 579, que sinalizou para os consumidores que eles poderiam aumentar o consumo de energia, a forte onda de altas temperaturas no país e o crescimento vegetativo da população brasileira. “Sem a MP 579 e sem o calor, a demanda cresceria 4% e não os 12% registrados”, resume o presidente da Abrage. Por causa desses fatores, o ponto mais alto do consumo, que tradicionalmente ocorria a partir das 18h, agora começa às 15h. 
Preocupação A queda vertiginosa na energia natural afluente preocupa . “É como se os shoppings não vendessem no Natal”, compara Flávio Neiva. Os números do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostram que o consumo no pico foi de 78.032 ao longo de 2013, mas a partir de dezembro começou a bater recorde atrás de recorde até chegar aos 85.708 MW apurados em 4 de fevereiro de 2014. Para Walter Froes, diretor da CMU Energia, o governo reduziu o preço do insumo na hora errada. “Além disso, um ar-condicionado pode ser adquirido em várias prestações”, observa. Ele lembra que o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) está em seu teto máximo (R$ 822) pela segunda semana consecutiva. Até aqui, o maior preço para a energia comercializada no mercado de curto prazo foi de R$ 570, em janeiro de 2008. 
“O país passa por um problema de geração de energia. Os reservatórios estão baixando e pode não chover, ou as chuvas podem continuar fracas. Os reservatórios estão baixando também porque o calor evapora a água. Isso quer dizer que a água que entra está diminuindo e a que sai (para gerar energia) está aumentando. As térmicas estão no máximo. A situação é preocupante”, diz João Camilo Pena, ex-presidente da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), ex-presidente de Furnas e ex-ministro da Indústria e Comércio. 
Analistas do setor estimam que pelo menos R$ 8 bilhões anuais gastos com termelétricas — acionadas para compensar o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas — poderiam estar sendo poupados caso houvesse uma campanha nacional de conservação de energia. Além disso, o risco cada vez maior de racionamento seria totalmente afastado caso os consumidores ajudassem com uma singela economia média de 5%. “Se em fevereiro não chover, vamos ter dificuldades sérias em março e abril. Esta é a hora de o governo chamar a população para consumir menos energia”, avisa Penna.
 
Apelo por economia na mesa
 
Apesar dos riscos e do crescente custo da eletricidade, prevalece o receio da presidente Dilma Rousseff de esvaziamento do seu discurso político, caso um pedido de cooperação do público seja associado ao plano de racionamento de 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. “Essa será uma decisão difícil de ser tomada. Se o governo admitir uma situação como essa, desencadeará uma sensação de insegurança muito grande”, afirma Flávio Neiva, presidente da Associação Brasileiras das Empresas Geradoras de Energia. Segundo ele, ainda não é hora de fazer esse anúncio. Mas a situação pode mudar se as coisas não melhorarem nos próximos 10 dias. 
“Sairia bem mais barato para a população e para o próprio governo reconhecer que a saída mais óbvia está num ajuste espontâneo da demanda”, afirmou ao Estado de Minas o dirigente de outra entidade do setor elétrico. O Sumário Executivo do Programa Mensal de Operação, divulgado sexta-feira pelo ONS, mostrou uma alta de quase 60% em só uma semana no valor de custo do megawatt-hora no Sul e Sudeste, saltando de de R$ 1.065,74 para R$ 1.691,39. O texto admite que há necessidade de racionamento, mas descarta a adoção de cortes, em razão de uma perspectiva de chuvas nas próximas semanas e de um arrefecimento da onda de calor. Dados divulgados pelo ONS mostram que o volume de água armazenado nas duas regiões na quinta-feira representava só 37,6% da capacidade total, abaixo do nível de 2001, ano do racionamento.
Para o consultor João Carlos Mello, da Thymus Energia, o governo precisaria o quanto antes “abrir o jogo” e encarar a urgência da “mais salutar das medidas”. “Embora estejamos em ano eleitoral, de nada adianta esconder a realidade. A natureza não tem ajudado e a falta de chuvas trouxe, sim, um quadro preocupante”, acrescentou. (SR e ZF).
 

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