Publicado: 18/08/2026
Escrito por: Celso Chagas
Veículo: Brasil Energia

A abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão, da forma como foi anunciada pelo governo federal, não oferece, na avaliação de Walter Fróes, presidente da CMU Energia, atratividade suficiente para provocar uma migração em massa. Para ele, o principal desafio está em criar uma vantagem econômica clara para consumidores que hoje têm alternativas como a geração distribuída.
Fróes afirma que mesmo consumidores com demanda inferior a 500 kW, que já podem migrar para o ACL na modalidade varejista, encontram dificuldades para tomar essa decisão. “Não tem ninguém migrando devido aos preços da energia”, disse, em conversa com a Brasil Energia.
Para ele, a abertura para a baixa tensão exigirá também uma comunicação mais simples e produtos adequados ao perfil do consumidor residencial e de pequenos negócios. E mais: a abertura para consumidores de baixa tensão corre o risco de ser apresentada como um benefício mais simples do que efetivamente é.
Ele cita como exemplo o consumidor residencial, que precisaria lidar com uma estrutura de contratação e representação [junto à CCEE] que considera complexa diante da alternativa hoje disponível na GD, que pode oferecer descontos diretamente na conta. “Como é que chega na ‘Dona Maria’, que é 70% da população?”, pergunta. Segundo ele, o mercado livre ainda é desconhecido pela maior parte dos consumidores, o que dificulta a venda de produtos e serviços associados.
Neste contexto, o CEO questiona se a abertura anunciada pelo Ministério de Minas e Energia será suficiente para produzir uma mudança relevante no comportamento dos consumidores. “Além do preço, será necessário reduzir a complexidade da contratação e da representação no ACL”.
Supridor de Última Instância
A criação do supridor de última instância (SUI), prevista no desenho de abertura do mercado para proteger consumidores diante de eventuais problemas com comercializadoras, é outro ponto de discordância. Fróes considera que o consumidor deveria ter um mecanismo rápido para trocar de comercializadora caso a empresa contratada deixe de cumprir suas obrigações, em vez de o Estado assumir diretamente o fornecimento.
“Eu acho que tem que oferecer é um fast track para o consumidor não ficar sem energia”, pontua, em meio a um cenário de problemas financeiros envolvendo agentes do mercado. Fróes relata que a própria CMU tem consumidores inadimplentes com processos judicializados e considera mais eficiente permitir uma transferência rápida para outro comercializador do que criar uma estrutura estatal permanente para atender esses casos.
Empresa prevê dobrar carteira
Apesar dos ponteios quanto à atratividade da abertura da baixa tensão, a CMU Energia mantém uma estratégia de expansão no mercado varejista; administrando atualmente cerca de 100 mil consumidores, trabalha com a possibilidade de chegar a aproximadamente 200 mil até o fim de 2027.
O crescimento, segundo Fróes, deverá ocorrer principalmente por meio da GD e de outros modelos de atendimento, não necessariamente como consequência direta da abertura do ACL para a baixa tensão. A companhia também atua em projetos de autoprodução e identifica oportunidades em modelos que permitam reduzir custos para os consumidores.
Eletropostos entram na estratégia
Outra frente de crescimento da CMU é a infraestrutura para veículos elétricos: recentemente, a empresa lançou uma nova divisão voltada ao abastecimento de veículos e mantém a meta de instalar 100 eletropostos nos próximos 18 meses.
O aporte estimado poderá chegar a R$ 50 milhões para atingir a meta. O plano prevê atuação em locais com fluxo de consumidores, como supermercados, além de oportunidades relacionadas a frotas de empresas de transporte e aplicativos.
Fróes vê espaço para expansão diante do aumento da frota elétrica e do custo mais baixo da eletricidade em relação aos combustíveis convencionais. Segundo ele, o preço praticado em alguns eletropostos chega a R$ 2,50 por kWh, enquanto a CMU pretende trabalhar com valores próximos de R$ 0,20 por kWh em determinados modelos de negócio.
A empresa já prepara uma unidade em Ribeirão Preto e avalia oportunidades em São Paulo, inclusive associadas a frotas de aplicativos. Outra possibilidade é o uso de baterias para abastecimento rápido de veículos leves, incluindo sistemas de troca de baterias para bicicletas elétricas.
Além dos eletropostos, Fróes aposta na combinação entre geração solar e armazenamento. Ele defende que a instalação de baterias permite carregar o sistema durante o período de maior geração solar e utilizar a energia armazenada nos horários de ponta, quando a tarifa é mais elevada.
Para ele, o armazenamento tende a ganhar importância no sistema elétrico à medida que aumenta a participação das fontes renováveis. As baterias podem contribuir tanto para a gestão da demanda quanto para reduzir os efeitos do curtailment, que tem afetado projetos de geração renovável. “BESS é a grande saída”, afirma.
Articulação política
Além das questões econômicas e regulatórias, Walter Fróes demonstra preocupação com a articulação política do setor elétrico: na sua visão, falta uma liderança capaz de conciliar os interesses de geração, transmissão, distribuição e comercialização em torno de uma agenda de longo prazo.
“Falta no Brasil uma liderança capaz de aglutinar os interesses e caminhar para frente”, aponta. Para o executivo, o setor precisa reduzir a fragmentação das decisões e buscar uma visão que permita o desenvolvimento conjunto das diferentes etapas da cadeia.
Ele também critica a crescente influência política sobre decisões e estruturas do setor, quando temas complexos acabam sendo tratados com foco excessivamente político, sem considerar seus impactos técnicos e econômicos.
“O diabo mora nos detalhes”, disse, ao defender que decretos e leis precisam ser acompanhados de uma regulamentação capaz de produzir segurança jurídica e condições efetivas para os investimentos. Mas, para ele, uma eventual mudança política pode alterar esse cenário, com uma nova configuração que possa voltar a priorizar uma agenda estruturante para o setor elétrico.
Por fim, Fróes acredita que o potencial de expansão do mercado brasileiro é elevado, mas depende de maior coordenação entre os agentes. “Nós vamos ter que ter uma liderança centralizada, equilibrada, para não ficar só a base de interesse para cá, um puxadinho para cá, outro para lá”, afirma. A prioridade, segundo o executivo, deveria ser uma agenda em que geração, transmissão, distribuição e comercialização tenham condições de crescimento equânimes.