Economize até 35% na conta
de energia da sua empresa.

Risco de inadimplência de comercializadoras pressiona por regras mais rígidas para setor

Autor:
Fernanda Guimarães e Robson Rodrigues, Valor Econômico

Comercializadoras enfrentam alta volatilidade de preços e falta de garantias num sistema que ainda opera sem proteção contra riscos sistêmicos

Dri Barbosa: “Negociações no mercado de energia ainda ocorrem por meio de contratos bilaterais” — Foto: Rogerio Vieira/Valor

A crescente crise financeira entre comercializadoras de energia acendeu um alerta vermelho no setor elétrico. Desde 2019, ao menos sete empresas – incluindo casos recentes de 2W Ecobank, Gold e Máxima Energia – recorreram à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas. O movimento demonstra uma fragilidade setorial e sinaliza que a situação pode ter extrapolado casos pontuais, trazendo à tona a possibilidade de uma crise sistêmica no mercado livre de energia.

As comercializadoras de energia atuam como intermediárias no mercado livre, conectando geradores a consumidores por meio de contratos bilaterais de compra e venda de energia. Essas empresas negociam preços, volumes e prazos livremente, sem garantias centralizadas, o que torna o sistema sensível a quebras contratuais.

Assim, quando uma comercializadora não honra seus compromissos, o impacto se espalha por toda a cadeia – afetando fornecedores, compradores e demais agentes interligados. Agora, com mais empresas enfrentando crise financeira, a fragilidade estrutural de um mercado que opera sem um mecanismo sólido de proteção contra inadimplência ficou em evidência.

De um lado, agentes do setor apontam a necessidade de mudanças de regras regulatórias. De outro, a demanda é pela estruturação de um sistema que traga robustez e credibilidade às operações, importando algo já visto, por exemplo, no mercado de bolsa de valores.

Segundo um executivo do setor, os problemas financeiros de diversas comercializadoras em um curto espaço de tempo acendeu o sinal de alerta. Ele acredita que a solução não será regulatória, mas, sim, por meio da estruturação de uma “clearing”, que é uma câmara que garante o cumprimento das transações, como ocorre hoje na B3.

Nesse sentido há projetos como o da N5X – nova bolsa formada por meio de uma joint venture entre a European Energy Exchange (EEX) e a L4 Venture Builder, fundo da B3 – que atua como contraparte central, responsável pela negociação em tela, contratos padronizados, instrumentos financeiros, entre outras coisas.

A CEO da N5X, Dri Barbosa, conta que as negociações no mercado brasileiro de energia ainda ocorrem, em sua maioria, por meio de contratos bilaterais, sem a presença de uma estrutura centralizada de gestão de riscos. Ela ressalta que o principal objetivo dos agentes é travar preços para mitigar a exposição às oscilações do mercado.

A executiva reconhece que não existe “bala de prata” que dê conta de pôr fim em todos os problemas, mas é preciso endereçar um plano agora. Com o avanço da liberalização do mercado livre de energia, ela avalia que o volume de contratos e a complexidade das operações tendem a crescer, o que reforça a necessidade de mecanismos mais robustos de proteção e liquidez.

“A dinâmica de uma contraparte central é negociar contratos futuros e, ao invés de ter um pagamento só após o período de suprimento, há ajustes diários que garantem que em uma grande oscilação não tenha um delta tão intenso”, diz a executiva.

Segundo ela, nesse tipo de ambiente, a presença de uma estrutura de salvaguardas – com a atuação de um membro de compensação e a exigência de garantias depositadas pelos participantes – permite limitar a exposição de cada agente ao valor das garantias aportadas.

Para alguns agentes do setor, a proposta de uma contraparte central parece ainda algo caro e distante da realidade brasileira, já que o plano da NX5 é que a “clearing” funcione somente no fim de 2026. Restam ainda dúvidas se as empresas terão fluxo de caixa para aportar diariamente ajustes de preço.

A sócia da área de reestruturação do Cescon Barrieu, Cinthia de Lamare, afirma que a atividade do setor se mostra cíclica e quando uma empresa entra em operação balanceada gera um “déficit no sistema”, sendo que as empresas ficam com menos liquidez e não conseguem regularizar a situação.

“É necessária uma solução regulatória para um maior controle dessa exposição desses agentes”, afirma a sócia do Cescon. Segundo ela, dado o número de empresas com problemas financeiros, um aprimoramento da regulamentação pode se mostrar crucial. Ela frisa que o desafio dessas empresas se mostra ainda maior pelo fato de muitas não terem ativos, que poderiam ser vendidos, por exemplo.

Tradicionalmente, em processos de recuperação judicial, a venda de ativos é uma das formas mais comuns de se obter liquidez, já que as torneiras de crédito acabam minguando nesse contexto.

Uma das poucas comercializadoras que conseguiu se reerguer foi a CMU Energia. O CEO da empresa, Walter Fróes, conta que a companhia entrou em recuperação judicial em 2016, após outra empresa deixar de aportar as garantias contratuais previstas – em outras palavras, deu calote. Com a chegada das chuvas, os preços da energia despencaram. “Eles acharam melhor comprar a energia a PLD [Preço de Liquidação das Diferenças] do que honrar o contrato”, diz Fróes. A empresa opera normalmente, mas busca na Justiça recuperar milhões.

Enquanto algumas alternativas se somam à mesa, o número de comercializadoras em crise continua crescendo. O último caso foi o da Gold, uma das maiores comercializadoras independentes do setor, que neste ano chegou a entrar com uma cautelar protetiva e tenta negociar com credores uma recuperação extrajudicial. Sua crise financeira se intensificou em novembro de 2024, quando a severa seca afetou os reservatórios das hidrelétricas e fez o PLD disparar. A Gold ficou exposta ao risco de mercado e sofreu quebra contratual com diversas contrapartes.

Os efeitos foram sentidos em toda cadeia. O mercado brasileiro de energia passou semanas travado, com forte retração na liquidez e receio generalizado de colapso, diante do risco de quebra da Gold, que acumulava prejuízos nas operações. Com uma dívida superior a R$ 1,1 bilhão, a comercializadora buscou evitar a falência por meio de um plano de reestruturação que previa o pagamento de 2,5% do total devido, limitado a R$ 25 milhões para quitação à vista.

O efeito tem sido em cadeia. Na Gold, por exemplo, estão pesos-pesados entre os credores, como CPFL, com mais de R$ 200 milhões; Cemig, com R$ 116 milhões; e EDP Trading, com R$ 103 milhões. Constam, ainda, Auren, Eneva, BTG, Statkraft, ArcelorMittal Brasil e Casa dos Ventos.

Em teleconferência com acionistas, o vice-presidente de comercialização da Cemig, Sérgio Cabral, afirmou que, diante do episódio, a companhia decidiu adotar uma postura mais conservadora no mercado.

Para os anos de 2026 e 2027, a estratégia será manter uma posição vendida limitada, apostando na redução do preço da energia, mas com mínima exposição aos riscos de oscilação. “Nossa diretriz é manter a exposição mínima e acompanhar de perto as variações de preços”, afirmou o executivo.

Procurado, Cassiano Agapito, dono da Gold, afirmou por meio de nota que está buscando a melhor solução possível para os credores e destacou que, diante da alta volatilidade e de um mercado cada vez mais competitivo, oneroso e com margens reduzidas, a atratividade do setor tem reduzido cada vez mais.

Os casos se repetem. A comercializadora Máxima passou por problemas similares, mas avançou no plano de negociação com credores. Em nota, a empresa disse que a companhia se “reestruturou através de um processo de negociação amplo com 90% de adesão e a empresa se encontra pronta para os próximos passos.”

Já no caso da 2W, a crise está mais associada aos projetos de geração de energia. A empresa argumenta em seu pedido de recuperação judicial que a implantação dos empreendimentos enfrentou atrasos e variações de custo ao longo do tempo ocasionadas, principalmente, pela insolvência da empreiteira responsável pelas obras dos parques eólicos. Com energia vendida, mas sem os parques operando, a empresa precisou comprar eletricidade no mercado de curto prazo, o que também a deixou exposta a variações de preço de mercado. Procurada, a 2W não quis se manifestar.

Os casos que estão surgindo contam ainda com um pano de fundo de alta volatilidade nos preços de energia, variações climáticas e mudanças regulatórias.

Diante dos riscos crescentes, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) tem ativado com mais frequência o mecanismo de “operação balanceada”. Trata-se de uma medida preventiva que impõe limites operacionais a empresas com indícios de desequilíbrio financeiro, restringindo o registro de novos contratos no mercado livre. Procurada, a entidade não retornou o contato da reportagem.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) diz que iniciativas como o Monitoramento Prudencial, regulado pela agência e conduzido pela CCEE, são estratégicas. Elas visam criar um sistema que identifique riscos com antecedência e atue preventivamente.

LINK PARA A MATÉRIA

Compartilhar no:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts relacionados