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Sun setting behind the silhouette of electricity pylons

Brasil em campo, setor elétrico de olho: “Se houver excesso de geração, o sistema cai”

Autor:
Walter Fróes, CEO da CMU Energia. Foto: Kalila Issa

Nesta sexta-feira (19), os olhos do setor elétrico estarão novamente voltados para a Seleção Brasileira. Mas engana-se quem pensa que os profissionais do segmento estarão atentos apenas ao duelo contra o Haiti, válido pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo.

Nos bastidores, operadores, comercializadoras, geradores e especialistas acompanham com igual atenção o comportamento do consumo de energia durante a partida.

Isso porque, jogos da Seleção neste tipo de competição costumam provocar oscilações expressivas na carga do sistema elétrico, com quedas durante o jogo e aumentos repentinos nos intervalos e após o apito final.

O tema ganhou ainda mais relevância nos últimos dias após o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionar, pela primeira vez, um plano emergencial para corte de geração em usinas classificadas como Tipo III.

A medida tomada reacendeu o debate sobre os desafios de manter o equilíbrio entre geração e consumo em um sistema cada vez mais influenciado pela geração distribuída e pelas fontes renováveis intermitentes.

Para entender como a Copa do Mundo afeta a operação do sistema elétrico, quais são os principais riscos associados às variações bruscas de carga e se existe alguma relação entre esses eventos e os recentes cortes de geração, o Canal Solar conversou com Walter Fróes, CEO da CMU Energia.

Com atuação no Mercado Livre de Energia e forte acompanhamento da operação do sistema elétrico nacional, a empresa monitora diariamente os impactos das oscilações de consumo sobre o equilíbrio entre geração e demanda.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

O que mais chamou sua atenção nos dados de carga registrados durante a partida entre Brasil e Marrocos? As oscilações ficaram dentro do esperado?

O que aconteceu foi exatamente o previsto. Nós acompanhamos várias edições da Copa do Mundo e essa variação já era esperada. O que tem de diferente é o momento do setor elétrico, onde eu acho que é mais difícil acompanhar essas variações durante uma partida. O ONS faz a gestão das usinas e o grande desafio é que as mini e micro usinas não costumam ser alvo direto de curtailment pelo ONS, porque estão conectadas às redes das distribuidoras e não à rede básica operada nacionalmente.

Tomando como base o primeiro jogo, o que o setor elétrico pode esperar do comportamento da carga durante Brasil x Haiti?


O que vai acontecer nesse jogo é que os volumes de energia serão menores, devido ao horário (21h30), o consumo é menor nesse período. O perfil da curva de consumo durante o jogo não muda: o consumo de energia vai caindo durante o jogo e depois, no intervalo, o consumo sobe. No final do jogo, sobe novamente. Mas, as rampas ao fim, a curva de queda antes do início do jogo e a rampa não serão menores.

Há fatores que podem tornar as oscilações ainda maiores nos próximos jogos, como o horário das partidas ou uma eventual classificação para as fases eliminatórias?


Nas próximas fases, pode ser que haja um interesse maior de acompanhar a Copa. Então, os volumes envolvidos de energia serão diferentes e maiores, mas o perfil, repetindo de novo, continua o mesmo.

Por que quedas e retomadas tão rápidas no consumo de energia representam um desafio para a operação do sistema elétrico? Quais são os principais riscos associados a essas oscilações bruscas de carga?


Hoje, o ONS não controla a micro e a mini geração distribuída, que é aproximadamente um volume de 30 a 40 GW de geração. Isso ocorre durante o dia, então quando tiver partidas ainda com a luz do sol, esse controle é mais complexo, mas em partidas à noite não representa um desafio.

Vai ter que controlar as termelétricas, as eólicas e as hidrelétricas. O principal risco associado é a queda de energia, porque a geração tem que ser exatamente igual ao consumo. Se houver excesso de geração, o sistema também cai, assim como falta de geração. 

Quais medidas operacionais o ONS costuma adotar para garantir a segurança do sistema durante eventos de grande mobilização, como a Copa do Mundo?


Ligar uma usina hidrelétrica, não é assim como ligar um botão e pronto. Ela exige um tempo para retornar. Uma medida que é comum acontecer é o seguinte: ligar uma turbina, e ela começa a girar até chegar na velocidade que ela precisa rodar para gerar energia.

Então, uma medida que eles fazem muitas das vezes é deixar o equipamento rodando em vazio, sem água, e na hora que precisa só introduz a água. É igual você deixar o carro ligado, parado na Fórmula 1, quando der o sinal verde, o carro arranca. Você não vai ligar o carro, vai puxar o freio de mão, por exemplo. Deixa então as turbinas rodando em vazio, só introduz o combustível no momento que precisar.

O recente acionamento do plano emergencial para cortes em usinas Tipo 3 tem alguma relação com os desafios operacionais observados durante os jogos da seleção ou são situações distintas?


No setor elétrico, a geração de energia tem que ser exatamente igual o consumo. Então não pode ter sobra de energia também. A geração tem que ser exatamente igual ao consumo.  Por isso, o ONS já vem implantando aí esse procedimento de curtailment. Acredito que a medida da ONS feita no domingo, tenha sido apenas um ensaio para preparar para o evento da Copa do Mundo, que é um evento grande.

De que forma o crescimento da geração distribuída e das fontes renováveis intermitentes tem alterado a forma como o setor elétrico se prepara para eventos como a Copa do Mundo?


O ONS faz a gestão das usinas, o grande desafio é que as mini e micro usinas não costumam ser alvo direto de curtailment pelo ONS, porque estão conectadas às redes das distribuidoras e não à rede básica operada nacionalmente. Essas usinas não são gerenciáveis ou não são gerenciadas. Tecnicamente é possível, mas não tem nada instalado que corta a geração da minha casa, por exemplo. Existem outros 8 milhões de pessoas que geram a própria energia. Então, esse é o desafio dentro do crescimento de geração distribuída.

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