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Reservatórios melhoram, mas precisam de mais chuva

Autor:
Gabriela Rudy, André Ramalho e Robson Rodrigues / Valor

Expectativa é que, independentemente da recuperação dos volumes de água no sistema, tarifas de energia se mantenham pressionadas

As chuvas deste início de ano têm reforçado a recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, iniciada a partir de outubro, e desenham um cenário de menos estresse para a operação do sistema elétrico em 2022. Apesar da melhora dos indicadores, especialistas destacam que as chuvas ainda precisam de sequência, para garantir, de fato, um ano tranquilo para o abastecimento. Do ponto de vista dos preços, por sua vez, a expectativa é que, independentemente da recuperação dos volumes de água no sistema, as tarifas se mantenham pressionadas.

Em 2021, o país viveu a pior seca em 91 anos, o que levou os volumes das hidrelétricas às mínimas históricas, principalmente no Sudeste, e gerou necessidade de acionamento de térmicas, mais caras, de modo a evitar possíveis apagões em horários de pico de consumo. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indica que o cenário melhorou e que deve haver sobras de potência (de oferta de energia) pelo menos até maio.

Pelas projeções mais recentes do ONS, os reservatórios das regiões mais afetadas pela seca em 2021 – Sudeste e Centro-Oeste – devem chegar ao fim de janeiro com 40% de capacidade, depois de terem caído para menos de 15% em outubro, no fim do período seco. A previsão é que os reservatórios fecharão o mês de janeiro com 73,2% da capacidade no Norte, 70,2% no Nordeste e 34,8%. no Sul.

Segundo o ONS, o volume de água que chegará às hidrelétricas (“afluência”, no jargão do setor) esta semana vai superar as médias históricas em quase todo o país. Assim, não há previsão de indisponibilidade para atendimento da demanda de carga no Sistema Interligado Nacional (SIN) em 2022.

O meteorologista da Climatempo Filipe Pungirum explica que o fenômeno da Zona de Convergência do Atlântico Sul tem contribuído para que os principais reservatórios do Sudeste se recuperem. A expectativa é que as principais bacias hidrográficas batam suas metas climatológicas em janeiro. “A preocupação segue se perpetuando para o início do próximo período úmido de 2022/2023”, disse.

Já o gerente de projetos da consultoria PSR, Celso Dall’Orto, destaca que, para que os reservatórios se recuperem efetivamente, as chuvas do período úmido precisam cair de maneira sequencial, constante, e em grandes quantidades, nas principais bacias do país. Desse modo, é possível manter os subsolos dos rios cheios e assegurar uma boa base para o período seco, que começa em abril.

“Esperamos um bom período úmido, mas o importante não é só a previsão de chuva nessa época, mas sim o quanto conseguimos acumular de água no período. Somente entre abril e maio é que vamos saber, em termos de previsão de chuvas e nível dos reservatórios, se conseguiremos passar o ano de forma tranquila”, afirmou.

Para o professor da Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, o que se desenha, em termos de segurança do abastecimento para 2022, é “uma operação mais tranquila”. “O problema maior, neste ano, é o da questão tarifária”, ponderou. “[A contração das térmicas emergenciais] É uma herança pesada, com consequências para os próximos anos”, comentou.

Na visão de Tolmasquim, houve erros na gestão dos reservatórios. O professor cita que o despacho termelétrico foi reduzido, no início de 2021, quando já se desenhava um cenário desfavorável da hidrologia, e que as medidas de incentivo à redução voluntária do consumo e de recuperação dos reservatórios demoraram a sair.

O professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), Nivalde de Castro, não vê risco de desequilíbrio entre oferta e demanda de energia, devido à baixa atividade econômica, às chuvas acima da média e à entrada em operação de novos projetos eólicos e solares. Para ele, o fantasma que assombra o setor agora é o custo das ações de enfrentamento da crise. “Usamos energia à vista para pagar a prazo”, apontou.

Dall’Orto, da PSR, acredita que ao fim de fevereiro o ONS terá maior clareza da necessidade de manter o uso de termelétricas mais caras.

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