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Reservatórios estão cheios e têm que ser preservados, diz ANA

Autor:
Daniel Rittner e Rafael Bitencourt / Valor

Nova presidente da agência quer valor da água mais bem refletido nos custos da geração de energia

Verônica Sánchez: “Na maior parte dos reservatórios, temos o maior armazenamento em dez anos para o fim de abril”

A nova diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Verônica Sánchez, defende uma gestão mais conservadora dos reservatórios e a abertura de discussões com o setor elétrico para precificar mais adequadamente o uso da água na geração de energia.

Em entrevista ao Valor, ela apresentou os resultados do plano de contingência adotado pela ANA entre 1º de dezembro de 2021 e 30 de abril de 2022, aproveitando o período de chuvas para recuperar os reservatórios das principais hidrelétricas do país.

Durante esse período, houve uma série de restrições operativas para a vazão máxima de saída das represas. Isso significa que, em caráter excepcional, foram definidos limites mais rígidos de “liberação” de água pelas usinas.

Nos sete reservatórios de regularização incluídos no plano da agência, o volume útil subiu para 65% ou mais. Sobradinho, localizado no rio São Francisco e considerado a grande caixa d’água da região Nordeste, atingiu sua capacidade máxima e começou a verter. Furnas terminou com 85%.

“Na maior parte dos reservatórios, temos o maior armazenamento dos últimos dez anos para o fim de abril. Isso traz conforto para o período seco deste e dos próximos anos”, afirma Verônica.

Ela fez questão de ponderar que, exceto na bacia do São Francisco, a afluência esteve na média ou até um pouco abaixo da média histórica (considerando as últimas nove décadas) durante os cinco meses da temporada de chuvas. “O que realmente fez diferença foram as regras operativas.

”Diante do novo quadro, Verônica enxerga “o momento mais adequado” para a abertura de uma discussão sobre o valor da água. Nessa reavaliação geral, entende que é preciso levar em conta o impacto de reservatórios vazios para outras atividades econômicas, como o funcionamento de hidrovias para o transporte de cargas, pesca, turismo e atividades de lazer em torno dos lagos.

“Nos modelos que rodam para valorar a geração de energia, para saber qual é a fonte mais barata na busca por modicidade tarifária, [a hidrelétrica] é a primeira que gera porque o valor da água é quase zero. Mas, quando você acrescenta os custos de não ter água para outros setores, esse valor não é mais zero”, argumenta.

Recém-empossada na ANA, ela pretende levar esses pontos para o Ministério de Minas e Energia (MME), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Vamos verificar se é mais barato e saber qual é o impacto, quanto custa para outras atividades. É algo que gostaríamos de trazer para o modelo operativo do setor elétrico. Assim, teríamos um equilíbrio maior e evitaríamos, no futuro, a necessidade de novos planos de contingência para encher os reservatórios.

Verônica defende que chegou o momento de fazer os ajustes necessários. “É um momento de conforto. Com reservatórios cheios, agora, dá para a gente conversar sem sobressaltos.

”A nova presidente da ANA avalia que uma maior valorização da água não precisa ser definida necessariamente com a imposição de um custo adicional, bastaria fazer com que as usinas preservem mais água nos reservatórios.

“É até um papel da agência, como um moderador de conflitos sobre uso da água, dizer: ‘olha, vamos operar os reservatórios de maneira mais equilibrada porque vai ser bom para todo mundo’. Isso garante os múltiplos usos e também que o setor tenha a sua disposição uma ‘bateria’ para operar o sistema com mais tranquilidade”, afirmou.

A ideia de usar os reservatórios das hidrelétricas como “baterias” a serviço do sistema é defendida por especialistas, diante da possibilidade de obter maior segurança na operação do sistema. Tanto as hidrelétricas quanto as térmicas – estas com custo mais elevado – conseguem estabilizar o fluxo de energia compensando o comportamento da geração eólica e fotovoltaica (solar), consideradas fontes intermitentes.

“Podemos acionar primeiro as outras fontes que têm um custo interessante. A água a gente usa quando realmente achar que precisa”, afirmou Verônica.

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