Segundo diretor da CMU, mercado aguarda as chuvas de fevereiro para aderir ou não
Por Nelson Valencio 27/01/2026

Walter Fróes, diretor da CMU (Divulgação)
As migrações para o mercado livre de energia caíram 19% em 2025 em comparação com o ano anterior, mas a redução pode ser mais forte em 2026. Para Walter Fróes, diretor da CMU Comercializadora, a migração atual está ameaçada.
Segundo ele, a expectativa de retomada depende fundamentalmente de uma mudança no cenário de preços. O próximo mês, na avaliação do especialista, que é o pico do período úmido, será decisivo para verificar se as afluências de chuvas trarão os preços para níveis “civilizados”, que permitam novamente a competitividade em relação ao mercado cativo.
Fróes, no entanto, lembra que não basta chover em qualquer lugar e que a afluência precisa ocorrer nas regiões estratégicas do Sudeste e Centro-Oeste, onde está concentrada 70% da capacidade do mercado.
“Todos esperam fevereiro para validar se a oferta hídrica será suficiente para pressionar os preços para baixo, superando as barreiras atuais impostas pela aversão ao risco e pelas margens de segurança do ONS”, avalia Fróes.
Ele explica que a paridade ou a inversão de preços entre o mercado livre e o cativo atua como uma trava imediata para novas migrações. Quando os preços no mercado livre (spot) atingem patamares elevados, superando as tarifas do mercado regulado, o incentivo econômico desaparece, resultando em uma paralisação das adesões.
O executivo destacou a cotação de R$ 373 por megawatt-hora na semana passada, valor considerado superior à tarifa regulada, o que anula a atratividade da mudança. Com esse cenário, ele crava que que é inviável a migração no varejo em 2026.
Fróes aponta que a paridade de preços afeta a tomada de decisão devido à estrutura dos contratos cativos. Para migrar, o consumidor precisa realizar a “denúncia” do contrato com a distribuidora com uma antecedência mínima, geralmente de seis meses.
Se o preço está alto no momento da decisão, o consumidor não assume o risco de denunciar o contrato para, no futuro, potencialmente pagar mais caro ou ter que retornar à distribuidora. O problema é que a concessionária pode não aceitá-lo de volta imediatamente, se for vantajoso para ela liquidar a energia no mercado de curto prazo.
De acordo com o executivo, na baixa tensão, a paridade de preços é ainda mais crítica devido à concorrência com a geração distribuída. O mercado livre oferece desconto apenas na parcela da energia (aproximadamente metade da conta), enquanto a GD oferece desconto sobre a tarifa inteira.
“Com os preços atuais, é difícil oferecer essa margem, tornando a expansão para a baixa tensão pouco provável, exceto em locais específicos como a Grande São Paulo, onde não há espaço físico para instalação de placas solares”, pontua Fróes.
A atuação do ONS igualmente tem influenciado o cenário. “Ele tem operado com margens de segurança “monstruosas” após o apagão de agosto de 2023, restringindo a capacidade de transmissão e elevando custos”, sintetiza o diretor da CMU.
Explicando: após o evento, o ONS aumentou drasticamente as margens de segurança para a transferência de energia entre os submercados, onde se permite passar apenas cerca de 20% da capacidade. Essa restrição impede que a energia barata e abundante, gerada por eólicas e solares no Nordeste, chegue plenamente ao centro de consumo do Sudeste, mantendo os preços altos no mercado onde está a maior parte da carga.
“A atuação do ONS cria um cenário contraditório: há sobra de energia no sistema físico, mas o preço não cai”. “Para que os preços voltem a níveis “civilizados”, é necessário não apenas chover, mas também que o Operador reveja essas diretrizes de despacho e reduza as margens de segurança”, finaliza.