Usinas da estatal têm sido mais despachadas em meio à falta de chuvas e à baixa
nos reservatórios
A crise hídrica e o consequente aumento nos preços da energia deve ter impactos
na Eletrobras nos próximos meses, segundo o presidente da estatal, Rodrigo Limp.
O Brasil enfrenta o período seco com o menor volume de chuvas dos últimos 91
anos, o que tem afetado a geração hidrelétrica.
Em conferência com executivos na tarde de ontem, Limp afirmou que o risco
hidrológico (GSF) da companhia deve se refletir nos próximos meses, bem como nos
preços de energia de curto prazo. O Preço de Liquidação das Diferenças (PLD)
cresceu em junho e julho e deve se manter em alta pelo menos até o fim do período
seco, em novembro.
A estatal fechou o segundo trimestre com lucro líquido de R$
2,52 bilhões, alta de 396% sobre 2020
Ao ser questionado se o risco hidrológico pode afetar a percepção de risco dos
investidores na operação, o executivo respondeu que a empresa vem se utilizando
de hedges para fazer frente aos maiores valores desse processo e que “é natural”
que esse tipo de risco seja considerado por investidores. “Mas como temos
contratos longos, os cenários conjunturas talvez não reflitam tanto [no cálculo dos
investidores]”, afirmou.
A Eletrobras fechou o segundo trimestre com lucro líquido de R$ 2,52 bilhões, uma
alta de 396% na comparação com igual período do ano passado. Segundo Limp, o
resultado reflete as revisões tarifárias na transmissão e a estratégia de
comercialização da empresa com o aumento dos preços de energia.
Diante da crise hídrica, as usinas da companhia estão sendo mais despachadas. A
diretora financeira da Eletrobras, Elvira Presta, explicou que a participação da estatal
na geração relativa (energia de fato gerada no sistema) está, hoje, maior do que a
participação da empresa na matriz elétrica como um todo.
A capacidade instalada das usinas da Eletrobras soma atualmente 50,5 gigawatts
(GW), o que representa 29% da matriz elétrica nacional.
Os executivos lembraram que a participação da companhia no mercado será
reduzida com o processo de capitalização e a consequente privatização, já que as
subsidiárias Eletronuclear e Itaipu Binacional serão segregadas e deixarão de fazer
parte do grupo. Por lei, essas empresas não podem ser privatizadas.
Limp ressaltou que a Eletrobras continuará sem ter poder de mercado para
interferir na formação de preços do setor de energia mesmo depois de privatizada.
Para ele, a expectativa é que a privatização amplie a competitividade do setor. “É
muito bom para o Brasil ter uma empresa do porte da Eletrobras com capacidade
de investimento.”
Nesse contexto, ele disse não crer que o Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade) fará ressalvas à capitalização da empresa, na análise do processo.
Dentre as próximas etapas para a privatização, a expectativa é que, até o fim deste
mês sejam definidos, pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), os bônus
de outorga e os aportes da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Para setembro, a previsão é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) conclua os estudos, laudos e modelos da capitalização. A
autorização do Cade é esperada para novembro. A previsão é que a oferta
subsequente (follow-on) das ações da companhia ocorra em fevereiro de 2022.
“O cronograma é desafiador, com muitas etapas a concluir ainda até chegarmos na
operação em si. Temos que trabalhar com cenários alternativos, mas estamos
confiantes com o [cumprimento do] cronograma”, disse o presidente da estatal.
Para tanto, a companhia já iniciou as conversas com o Tribunal de Contas da União
(TCU) sobre o processo de capitalização. “Não acredito que a análise do TCU vai ter
impedimentos para a capitalização”, afirmou o executivo.
Limp comentou também sobre o processo de definição dos bônus de outorga do
processo de capitalização e disse que a reforma tributária será considerada no valor
final, caso ela seja aprovada no Congresso antes da oferta de ações da Eletrobras.
Em meio à preparação para atuar como uma empresa privada, executivos da
Eletrobras começaram a discutir o novo plano de negócios. Segundo a diretora
financeira, a estatal está trabalhando neste momento na revisão do plano
estratégico e o documento incluirá o cenário da empresa pós-capitalização.
A diretora financeira disse que não há previsão, por ora, de alterações na política de
pagamentos de dividendos da companhia. O estatuto social da empresa assegura
aos acionistas o direito, em cada exercício, a dividendos e/ou juros de capital próprio
não inferiores a 25% do lucro líquido, em linha com a Lei das S.A. O estatuto
também não autoriza que a reserva de capital possa ser usada para pagamentos de
dividendos.
A empresa anunciou, nesta semana, a antecipação do pagamento dividendos, no
valor de R$ 1,5 bilhão, relativos ao exercício de 2020. O montante será distribuído
aos acionistas neste mês.