País volta a sofrer com risco de falta de luz mais de uma década após o racionamento

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De 2001 para 2014, muita coisa e pouca coisa mudou no setor elétrico brasileiro. Há 13 anos foi decretado o racionamento de energia que vigorou por quase três meses no país. O motivo: pouca chuva, represas vazias, falta de investimentos e planejamento na geração de energia. Até o fim de 2013, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), uma potência de 51,6 mil megawatts (MW) foi adicionada ao sistema, mas, apesar disso, a regularidade do fornecimento do insumo voltou ao fio da navalha. O motivo: a única maneira de armazenar energia é encher os lagos das usinas de água. Como os novos empreendimentos hidrelétricos instalados no país são a fio d’água (não possuem reservatórios) e a situação hidrológica em 2014 é pior do que a de 2001, continuamos nas mãos de São Pedro. 
Nesse sentido, outra cosia que não mudou é que Minas Gerais continua tendo uma importância mais do que estratégica para a regularização da oferta de energia no país. Estão localizadas no estado as nascentes dos três rios mais importantes para a hidroeletricidade brasileira: o Grande, o Paranaíba e o São Francisco, que possuem uma série de usinas hidrelétricas em seu curso e contam, juntas, com potência instalada de 24.529,5 MW, quase 30% de toda a potência hidráulica existente no país até 2013. Além disso, estão em Minas todos os grandes reservatórios do Sudeste, região que responde por 70% da geração hidrelétrica nacional. A questão é que esses grandes reservatórios são os mesmos desde 2001, observa Flávio Neiva, presidente da Associação Brasileira de Empresas Geradoras de Energia (Abrage). 
Na avaliação dele, nos 13 anos que se passaram do racionamento de energia para cá, vê-se um equilíbrio estrutural no sistema, já que as usinas instaladas no Brasil apresentam sobra de 6.000 MW. “O que aconteceu agora foi a conjunção de um calor absurdo com pouca chuva, o que de um lado aumentou o consumo e de outro reduziu a afluência de água nos reservatórios, que esvaziaram mesmo com a sobra estrutural. A única saída para essa situação seria que existissem mais usinas hidrelétricas com reservatório ou mais usinas térmicas”, acredita. 
Essa sobra de energia, no entanto, não foi suficiente para evitar que o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, convocasse os representantes do setor elétrico na última terça-feira, em Brasília. Na reunião, da qual participaram 30 representantes do setor elétrico, ele orientou o segmento para não alarmar a população e disse que ainda é possível operar o sistema evitando o racionamento de energia este ano. Desta forma, os reservatórios das usinas chegariam a 15% de sua capacidade em novembro 2014. Em 2001, em igual período, eles chegaram a 21%. A diferença é que naquela época não havia o recurso das térmicas. Dos 51 mil MW que entraram no sistema interligado nacional nos últimos 14 anos, 48% são provenientes de termelétricas. 
NO LIMITE 
“Aumentou o volume da oferta, mas não a segurança dessa oferta nos reservatórios. O sistema tem sido operado no limite. Em fevereiro, a operação esteve abaixo da frequência de 60 hertz, que é a normal no Brasil, o que culminou com o blecaute do dia 5 daquele mês”, diz um especialista do setor elétrico. A mesma fonte aponta que, coincidentemente, em 2014 deixarão de entrar em operação 6.000 MW, principalmente por atrasos nas obras das linhas de transmissão que conectariam a energia que está sendo produzida nos parques eólicos do Nordeste e que estava saindo das usinas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), à Região Sudeste. 
De acordo com Elbia Melo,  presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica),  havia um total de 1.200 MW parados nos parques por falta de linha de transmissão. No entanto, em fevereiro entraram 360 MW, outros 300 MW entrarão até o fim deste mês “e até o fim do ano todos estarão transmitindo”, sustenta. Somente a linha de transmissão do Madeira terá 2.300 quilômetros. Sua capacidade de transmissão será de 7.000 MW instantâneos, mas, por enquanto, só 1.100 MW estão passando. 
A entrada da energia que já está sendo produzida em Santo Antônio e em Jirau, somada  aos megawatts que estão “parados” nas eólicas, poderia ajudar a manter mais água nos reservatórios em 2014, mas seria um atenuante e não a solução para o problema. O lado bom é que as duas fontes de energia são complementares ao sistema de geração hidrelétrica do Sudeste. Ou seja, quando está chovendo por aqui, no Norte e no Nordeste está ventando. Por outro lado, quando a chuva deixa de cair no Sul e no Sudeste, as usinas de Santo Antônio e Jirau estão produzindo energia que vem da água e as eólicas, a energia que vem do vento.
Pouca armazenagem para muita demanda
Com o verão mais seco, o fato é que a capacidade armazenada de energia no Brasil para atender ao consumo no país está diminuindo. Hoje, de acordo com uma fonte do setor que pediu para não ser identificada, ela é suficiente para fazer frente à demanda no país por cerca de 5 meses. Há 10 anos, porém, os reservatórios das mesmas usinas tinham capacidade para atender a carga do sistema por seis meses. E é justamente a energia armazenada que dá garantia ao sistema para enfrentar situações como a que o Sudeste está vivendo hoje.
Enquanto isso, o consumo só cresce, principalmente nas residências e no segmento de comércio e serviços. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), entre 2001 e 2013 a expansão da demanda pelo insumo no país foi de 40,6%, em média. No consumo residencial ela cresceu 59,1%, no comercial 68%, e no industrial apenas 19%. Para Walter Froes, diretor da CMU Comecializadora de Energia, houve um aumento grande da demanda sobretudo na “Era Lula”. Isso significa que a entrada da Classe C no mercado de consumo, amparada pelo emprego, pelo aumento da renda e pelo crédito farto, impulsionou a compra de geladeiras, televisores, aparelhos de ar condicionado, entre outros eltrodomésticos. “A sorte é que a economia não está crescendo a contento porque hoje o sistema está se equilibrando no fio da navalha”, diz.
Para se ter uma ideia, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) de 2012 cresceu 0,9%, o consumo de energia cresceu 4,2% no mesmo ano, ou seja quase quatro vezes mais. Em 2013, o país cresceu 2,3% enquanto o aumento da carga foi de 3,6%. A previsão para 2014 é de uma expansão de 1,9% no PIB contra 4,8% no consumo. “O problema é que em dezembro de 2012 anunciou a redução de 20% na conta de luz e isso é um sinal econômico invertido porque induz as pessoas a gastarem mais energia”, diz outra fonte do setor que não quer ter seu nome revelado.

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