Autor:

Em março de 2011 o mundo voltou sua atenção para a energia nuclear sob o temor de um novo desastre como o de Chernobyl. Após o acidente de Fukushima, vários países decidiram, no calor dos acontecimentos e pressionados pela opinião pública, reduzir a participação da energia nuclear em suas matrizes elétricas. A Itália realizou um referendo no qual 94% da população votou contra a volta da geração de energia proveniente desse tipo de fonte. O Japão desligou seus reatores para realizar testes de estresse e anunciou a pretensão de abandonar o uso da energia nuclear a médio ou longo prazo. A Alemanha anunciou que fechará suas 17 centrais nucleares até 2022. Cabe lembrar: nenhum desses países possui reservas de urânio em seus territórios para abastecer suas usinas.

O Brasil, na contramão dos acontecimentos, constrói Angra 3, nossa terceira usina nuclear. Muitos se perguntam por que o país, com tantas fontes disponíveis, também não abandona o uso dessa energia tão criticada principalmente por ativistas ambientais. A resposta é simples: é preciso ter energia (de preferência menos poluente) para sustentar o crescimento econômico.

Hoje, pela pressão ambiental, não se constroem hidrelétricas com reservatório de acumulação, reduzindo a capacidade de geração das usinas nos meses com menor precipitação. A usina de Belo Monte, apesar de ter capacidade de geração plena de 11 mil MW, terá uma geração média anual de 4,5 mil MW, devido ao fato de não possuir um reservatório para regularizar as vazões afluentes à barragem.

As energias eólica e solar, fontes limpas e de impacto ambiental reduzido, ainda possuem baixa capacidade de geração. Segundo o Boletim Mensal da Geração Eólica, do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), entre agosto de 2011 e julho de 2012, a média do fator de capacidade (proporção entre a energia gerada em um período de tempo e a capacidade total máxima de geração no mesmo período) observada nas usinas do Sul e Nordeste foi de 35,62%. Ou seja, as usinas geraram, em média, 1/3 da capacidade total. A média mundial do fator de capacidade da energia solar, por sua vez, é de aproximadamente 15%.

Das fontes térmicas, a nuclear é a que menos polui, já que durante sua operação não há emissão de gases do efeito estufa. A abundância de jazidas de urânio no Brasil é outro fator positivo: o país ocupa a sexta posição no ranking mundial de reservas do minério (isso com apenas cerca de 30% do território prospectado). Segundo estimativas de 2011, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), apenas o urânio já prospectado seria suficiente para abastecer 37 usinas nucleares iguais a Angra 2 durante 65 anos. Ademais, por ter um combustível que pode ser extraído e enriquecido dentro do país, a energia gerada por fonte nuclear é menos susceptível a flutuações de preço do mercado internacional.

As energias eólica e solar não substituirão toda a geração nuclear dos países que estão desistindo de suas usinas. A Alemanha, que até março de 2011 tinha um quarto da energia elétrica gerada oriunda de fonte nuclear, já aumentou em 10% a emissão de gases do efeito estufa desde o início do desligamento de suas usinas. Além disso, houve aumento do custo da energia elétrica em mais de 12%. Na Itália, 65% da energia elétrica gerada é proveniente da queima de combustíveis fósseis e cerca de 10% da energia consumida anualmente é importada, a maior parte da França, onde a energia nuclear compõe cerca de três quartos da matriz elétrica. O Japão, que tem apenas 10% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, ainda não conseguiu definir como fará para substituir a fonte nuclear, responsável por 30% da produção de eletricidade no país.

Os grupos de ativistas que inflam a população contra a energia nuclear ainda não apresentaram alternativas razoáveis para substituí-la. As fontes mais aclamadas – solar, eólica e biomassa – são sazonais. A solução para que tenhamos energia limpa, de menor custo e segurança no suprimento está tanto na expansão de nosso parque nuclear quanto na volta da construção de usinas hidrelétricas com reservatório de acumulação. Afinal, é necessário ter um estoque de água, já que é a energia mais barata, e também uma fonte capaz de gerar energia faça chuva, sol ou vente.

É perfeitamente normal que um acidente como o de Fukushima dê origem a uma atmosfera de insegurança e temor. Mas não podemos deixar que debates ideológicos se sobreponham à razão, na busca por fontes limpas de energia e de menor custo. Com certeza, a redução da poluição ambiental não será conquistada com a abdicação da energia nuclear e sua substituição pela queima de combustíveis fósseis.

Compartilhar no:

Share on linkedin
Share on facebook
Share on whatsapp

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *